segunda-feira, 25 de julho de 2011

O casulo

Post um pouco grande, mas queria trazer aqui o conto que escrevi há um tempo e já que o publiquei de mil maneiras, aqui é mais uma delas, enjoy:


casulooooooooooooooooooooooooo

Por que só aprendemos a andar de bicicleta depois de cair várias vezes?

No horizonte ainda cai a chuva que vem em minha direção, me pergunto quando esse verão vai acabar. No dia anterior eu estava percorrendo a pista de corrida da minha cidade, em busca de ainda perder os quilos a mais que ganhei com as festas de fim de ano. Talvez isso dure até o fim do ano, para começar tudo de novo. E enquanto estava correndo, percebi que uma lagarta atravessava a pista, que cerca um parque ecológico. A lagarta lenta como só consegue ser, pessoas passaram e a pularam, uma mulher quando percebeu a presença do inseto deu um pulo pro lado ainda no ritmo de sua corrida e continuou correndo. Não parei para admirar a lagarta, mas ela foi objeto de meus pensamentos durante todo o tempo do exercício matinal de domingo.

Questiono-me se é a chuva que vem em minha direção ou eu na dela. Aumento o volume da música que estou ouvindo no som do carro, é um rock desses de fundo de filme de ação. Ou seria aventura? Gosto de músicas com letras melancólicas e experiências desastrosas escondidas em uma melodia cheia de instrumentos que te tiram a atenção do ponto principal. A vida.

É um momento bonito quando você está passando por uma estrada seca e de repente a chuva começa a tocar o carro, de frente. Ao mesmo tempo assustador. Você está indo em direção à chuva ou a chuva vem em direção a você? Sempre quis saber o que acontecia dentro do casulo das lagartas. Sei que alguém deve ter estudado e provavelmente visto isso com seus próprios óculos de cientista, em roupas de cientista. Ou até mesmo uma criança curiosa que abre o casulo, fazendo um favor para a borboleta lá presa. Mas ainda é cedo para mudar.

Agora andando de carro na chuva ouvindo minha música melancólica disfarçada. Percebo que me esqueci de tirar o lixo na noite passada. Será que ainda estava pensando na lagarta? Ou seria o cansaço da corrida matinal? O que eu fiz no resto do dia? Nessa manhã antes de sair de casa eu fiz o que toda pessoa com uma rotina definida faz, o ritual. Chaves. Roupas. Café. Uma olhada no jornal. A cama eu arrumo quando chegar, afinal é segunda feira. Não foi por pressa ou por ter esquecido, não arrumei a cama porque queria ter certeza de que voltaria e arrumaria depois.

A paisagem não me atrai mais, mesmo sendo diferente a cada dia que faço esse caminho. A chuva mudou tudo. Tornou tudo cinza e escondeu minha árvore favorita que fica logo após a segunda placa de retorno após o viaduto. Não culpo a chuva. Afinal é ela que rega minha árvore favorita. Pois mesmo a admirando muito não sou capaz de parar meu caminho e jogar água em seus pés na época de seca. A lagarta fica lá dentro do casulo e simplesmente sai na forma de uma borboleta. Como isso não intriga as pessoas? Acho que elas só não prestam atenção nesses detalhes. De que é feita a asa da borboleta? Seria a própria lagarta um casulo do que ela se tornará um dia?

O limpador de para brisa vai de um lado pro outro. A chuva está bem mais forte do que estava quando tocou a frente do carro. Já não consigo mais ver os prédios ao longe. Nem sequer os outros carros que estão do meu lado na pista. Faço mais um ritual, diminuindo a velocidade do carro, despejando toda a atenção na estrada. Não ouço mais a música. Ela está lá. No plano de fundo dessa história de ação. Ou seria suspense? Terror? Comédia? A música está lá. Mas não ouço mais nada. Um dos carros que eu não via faz uma manobra arriscada e entra na minha frente antes que eu terminasse o ritual. A rotina leva tempo.

A chuva ainda cai. Forte como nunca. Eu já não vejo nada, meus olhos estão fechados. Porque eu estaria de olhos fechados enquanto dirigia um carro? A música ainda toca. É a mesma música que ouvia quando percebi a chuva? Suor escorre pela minha testa. Abro os olhos. Limpo o suor vermelho da minha testa. Eu nunca gostei de vermelho. Sempre gostei do azul do céu. E tratava o vermelho como um oposto. A água da chuva me molha. Fria. Olho ao lado e vejo a pista de corrida que ontem havia percorrido. Ao fim da corrida eu cortei caminho por meio da mata para chegar em casa mais rápido. Mas o que eu fiz o resto do dia?

Não sinto minhas pernas. Eu sempre gostei da segurança do carro, me sentia salvo dentro dele. A música ainda toca. A chuva ainda cai. A lagarta está em seu casulo. Nunca entendi porque sempre gostei tanto de nuvens. Acho que é porque elas enfeitam o céu do azul que tanto gosto. Mas a chuva só esconde o céu. Não culpo a chuva. Será que aquela lagarta conseguiu fazer o casulo dela antes dessa tempestade? O rock esconde a melancolia em melodias cheias de instrumentos. Percebo que essa frase não faz sentido. Ou faz? Acho que é de um filme de drama. Fecho os olhos mais uma vez. Não sei se conseguirei abrir novamente. Estou eu meu próprio casulo. Quero que minhas asas sejam azuis. Como o céu. Afinal o que eu fiz ontem depois da corrida? Só consigo pensar na cama que deixei por arrumar.

Só aprendemos a andar de bicicleta, pois temos medo de cair novamente.